ALCOOLISMO
DEFINIÇÃO
O alcoolismo é
definido como o uso prolongado e excessivo de ETANOL, levando o usuário a uma síndrome
de dependência, caracterizada por um espectro clínico bastante conhecido. Esta
síndrome caracteriza-se por:
- um indivíduo de
alto risco
- o
desenvolvimento de mecanismos auto-perpetuantes que produzem dependência
- uma evolução
clinica mais ou menos típica
- complicações e
seqüelas típicas
A evolução clínica
progressiva é marcada por episódios repetidos de embriaguez, seguidos
geralmente por característicos sintomas de abstinência, e por períodos de
interrupções do uso de álcool. O CID-10 define Síndrome de Dependência como
um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, no qual o
uso de uma substância ou uma classe de substâncias alcançam uma prioridade
muito maior para um determinado indivíduo que outros comportamentos que antes
tinham maior valor. Uma característica descritiva central da síndrome de
dependência e o desejo (freqüentemente forte, algumas vezes irresistível) de
consumir drogas psicoativas (as quais podem ou não ter sido medicamente
prescritas), álcool ou tabaco. Pode haver evidência que o retorno ao uso da
substância após um período de abstinência leva a um reaparecimento mais rápido
de outros aspectos da síndrome do que o que ocorre com indivíduos não
dependentes.
DIRETRIZES
DIAGNÓSTICAS (CID-10):
Um diagnostico
definitivo de dependência deve usualmente ser feito somente se três ou mais
dos seguintes requisitos tenham sido experimentados ou exibidos em algum momento
durante o ano anterior:
a) um forte desejo
ou senso de compulsão para consumir a substância;
b) dificuldades em
controlar o comportamento de consumir a substância em termos de seu início, término
ou níveis de consumo;
c) um estado de
abstinência fisiológico (ver F1x. 3 e F1x. 4) quando o uso da substância
cessou ou foi reduzido, como evidenciado pela síndrome de abstinência característica
para a substância ou o uso da mesma substância (ou de uma intimamente
relacionada) com a intenção de aliviar ou evitar sintomas de abstinência;
d) evidência de
tolerância, de tal forma que doses crescentes da substância psicoativa são
requeridas para alcançar efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas
(exemplos claros disto são encontrados em indivíduos dependentes de álcool e
opiáceos, que podem tomar doses diárias suficientes para incapacitar ou matar
usuários não tolerantes);
e) abandono
progressivo de prazeres ou interesses alternativos em favor da substância
psicoativa, aumento da quantidade de tempo necessário para obter ou tomar a
substância ou para se recuperar de seus efeitos;
f) persistência
no uso da substância, a despeito de evidência clara de conseqüências
manifestamente nocivas, tais como dano ao fígado por consumo excessivo de
bebidas alcoólicas, estados de humor depressivos conseqüentes a períodos de
consumo excessivo da substância ou comprometimento do funcionamento cognitivo
relacionado à droga; deve-se fazer esforços para determinar se o usuário
estava realmente (ou se poderia esperar que estivesse) consciente da natureza e
extensão do dano.
EPIDEMIOLOGIA
Estudos epidemiológicos
realizados na população adulta brasileira sugerem uma prevalência de 8% a 10%
de abuso e dependência do álcool. Outros trabalhos realizados em Hospitais
Gerais de todo o país mostraram que 9% a 32% dos leitos eram ocupados por
pacientes que apresentavam algum problema médico relacionado ao consumo abusivo
de álcool
Nos EUA, dois terços
de todos os adultos usam álcool ocasionalmente e cerca de 12% dos bebedores
podem ser considerados grandes bebedores.
SÍNDROMES
CLÍNICAS RELACIONADAS AO USO DE ÁLCOOL
INTOXICAÇÃO
ALCOOLICA AGUDA (EMBRIAGUEZ), DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL OU ALCOOLISMO, SÍNDROMES
DE ABSTINÊNCIA AGUDA DO ÁLCOOL, COMPLICAÇÕES CLÍNICAS (CIRROSE HEPÁTICA,
ENCEFALOPATIA HEPÁTICA, SÍNDROME DE WERNICKE-KORSAKOFF).
Os quadros clínicos
decorrentes do uso de álcool são geralmente de origem nutricional, dos efeitos
farmacológicos do álcool sobre os tecidos corporais e das respostas
adaptativas do corpo a exposição excessiva de álcool (tolerância e dependência
física).
FARMACOLOGIA
DO ETANOL
O Etanol é
geralmente ingerido numa concentração de 5% (cerveja), 10 a 12% (vinho), 20 %
(vinhos encorpados) e 42 a 45% (cachaça, vodca, whisky e outras destiladas). Os
principais efeitos da bebida devem-se ao teor de etanol propriamente dito, que
é rapidamente absorvido pelo estômago e intestino, passando para a corrente
sanguínea, o que explica a sua rápida ação farmacológica. Alem disto, é
rapidamente metabolizado de modo que uma dose moderada geralmente desaparece do
sangue em cerca de uma hora. Sua absorção e decomposição metabólica fazem
do álcool uma droga de ação rápida, porém de curta duração.
Devido a sua
capacidade hidrossolúvel, o etanol se difunde rapidamente para todos os
compartimentos aquosos do corpo humano (extracelulares e intracelulares), de
modo que as concentrações sanguíneas do etanol refletem diretamente as
concentrações do composto em todo o corpo. Cerca de 10% de todo o etanol
ingerido são eliminados diretamente por difusão através dos rins e pulmões
(este é o modo pelo qual se detectam os níveis de etanol: exames de urina e
dosagem do etanol no ar alveolar (BAFÔMETRO) e os 90% restantes são
metabolizados no fígado).
A enzima chamada
ÁLCOOL-DESIDROGENASE é a responsável pela metabolização de quase todo o álcool
ingerido. Num homem de 70 kg esta enzima pode metabolizar cerca de 9 a 10 g de
álcool por hora, o que em termos práticos significa cerca de 25 a 30 ml de
whisky por hora. A ingestão de etanol a uma velocidade maior produzirá níveis
sanguíneos crescentes, que evidentemente a enzima não conseguirá metabolizar.
Durante a
metabolização do etanol, a conversão do nicotinamida-adenina dinucleotideo (NAD)
a NADH desloca o equilíbrio redox e causa distúrbios metabólicos, tais como a
hiperlipidemia e hiperuricemia. Como a álcool-desidrogenase esta quase
totalmente localizada no fígado, ocorre uma deposição de gorduras neutras no
fígado de cerca de 90% dos alcoólatras (esteatose hepática). Existem outros
sistemas enzimáticos que entram em ação no metabolismo do etanol, além da
desidrogenase, mas numa escala de importância menor: as catalases e o sistema
microssomal.
NEUROFARMACOLOGIA
DO ETANOL
O Etanol é um
potente depressor do sistema nervoso central, exercendo seus efeitos ao nível
dos receptores GABA-ergicos e GLU-ergicos da seguinte maneira:
a) estimulação
do sistema inibitório GABA-ergicos;
b) inibição do
sistema excitatório glutamatérgico (GLU-ergico). O efeito combinado final será
uma ação neuronal diminuída na fase aguda (depressão do SNC) e uma
excitabilidade aumentada na fase de abstinência. Como os receptores
GABA-ergicos e GLU-ergicos distribuem-se aleatoriamente pelas várias regiões
cerebrais, os efeitos do etanol podem ser muito distintos, variando de uma ação
relaxante inicial até quadros graves de depressão do SNC.
Fato da maior
importância é o aumento do numero de receptores glutamatérgicos induzido pelo
etanol. Este aumento de receptores GLU-ergicos está envolvido na
hiperexcitabilidade do SNC nos quadros de abstinência ("neurotoxicidade").
Por exemplo, os efeitos do etanol sobre os centros de controle inibitórios
podem liberar um comportamento excitatório. O álcool tende a deprimir o
sistema nervoso central de cima para baixo, afetando primeiramente a córtex
depois o sistema límbico, depois o cerebelo e por ultimo a formação reticular
e o tronco cerebral inferior.
DEFINIÇÃO
DE TERMOS
ALCOOLISMO:
significa
dependência do álcool e/ou problemas relacionados ao consumo de bebidas alcoólica.
ALCOOLISTA:
este termo se refere tanto aos bebedores problema quanto aos dependentes do álcool.
BEBEDOR
MODERADO:
pessoa
que utiliza a bebida alcoólica sem dependência e sem problemas decorrentes de
seu uso.
BEBEDOR
PROBLEMA:
pessoa que apresenta qualquer tipo de problema (físico, psíquico ou social)
decorrente do consumo do álcool, sem dependência.
DEPENDENTE
DE ÁLCOOL:
pessoa
que apresenta:
- desejo intenso
ou compulsão para beber, dificuldade para controlar o consumo de álcool quando
ao reinício, parada ou quantidade consumida;
- sinais de abstinência
quando o uso do álcool é interrompido ou muito reduzido;
- presença de
tolerância, sendo necessárias doses muito aumentadas de álcool para obter
efeitos antes produzidos por pequenas doses;
- abandono
progressivo de interesses e atividades de lazer devido ao uso do álcool;
- aumento do tempo
utilizado para obter e consumir bebidas e/ou para recuperar-se de seus efeitos;
- uso persistente
do álcool, apesar das evidências de danos tais como lesão hepática e prejuízo
das funções cognitivo (nesta circunstancia deve-se certificar que o usuário
esta consciente da natureza e extensão dos danos).
INTOXICAÇÃO
ALCÓOLICA AGUDA
Há uma correlação
entre a quantidade de álcool ingerida e o comportamento do individuo.
Entretanto esta relação pode sofrer influência de vários fatores, como sexo,
idade, peso corporal, tolerância individual, padrão anterior ao uso de álcool,
situação alimentar no momento da ingestão, estado emocional, etc. A intoxicação
aguda raramente ocorre em bebedores sociais, sendo mais freqüente nos
estilistas inveterados, bebedores problema e alcoólatras. O padrão de resposta
depende fundamentalmente do nível de alcoolemia e da tolerância preexistente.
O alcoólatra tem um alto nível de tolerância comportamental e fisiológica ao
etanol, de modo que podem precisar de níveis sanguíneos de etanol cem por
cento superiores aos dos estilistas sociais para mostrar alterações comparáveis.
Alguns alcoólatras se comportam adequadamente com níveis de álcool de 250 mg/ml,
uma concentração que pode levar um bebedor social ao estado de torpor. De um
modo geral, para fins de entendimento, a literatura cientifica demonstra que
podemos considerar como dose unitária os seguintes parâmetros:
300 ml de cerveja
a 5% ou 5% GL
100 ml de vinho a
14% ou 14% GL
35 ml de
destilados a 50% ou 50% GL
Em indivíduos com
70 quilos de peso corpóreo, essas doses são capazes de produzir uma alcoolemia
de 25 a 30%. Pode-se, portanto, calcular que quando um indivíduo ingere mais de
uma dose de bebida alcoólica sem grande intervalo de tempo entre elas, à
alcoolemia atingirá níveis sanguíneas múltiplos 25 ou 30. A tabela a seguir
mostra as alterações encontradas em bebedores sociais ou freqüentes de acordo
com os níveis sanguíneas de alcoolemia:
|
NÍVEIS
(mg/100 ml)
|
BEBEDOR SOCIAL
|
BEBEDOR CRÔNICO
|
|
50 (nível inicial)
|
euforia
|
Nenhum efeito notório
|
|
75
|
loquacidade
|
Nenhum efeito notório
|
|
100
|
Incoordenação motora
|
Nenhum efeito notório
|
|
125 a 150
|
Comportamento impulsivo inadequado
descontrole episódico.
|
Agradável euforia.Inicio de incoordenação
motora.
|
|
200 a 250
|
Diminuição do nível de consciência
até letargia
|
Esforço para manter o controle motor e
emocional
|
|
300 a 350
|
Do estupor ao coma
|
Sonolência, lentificação.
|
|
Acima de 500
|
Pode ocorrer a morte
|
Do estupor ao coma
|
De uma maneira
geral podemos dividir a intoxicação alcoólica em duas fases: uma excitatória,
nas quais os níveis de alcoolemia atingem de 100 a 200mg% e uma fase
depressora, na qual os níveis de alcoolemia atingem mais de 200 a 250 mg%. Na
fase dita excitatória, a estimulação do sistema inibitório GABA-ergico seria
mais proeminente, mostrando sua ação sobre centros de controle cerebrais
importantes. Na fase depressora, teríamos o efeito combinado final dos sistemas
GABA-ergicos e GLU-ergicos, ou seja, ação neuronal diminuída.
FASE EXCITATÓRIA.
O uso social de álcool
produz geralmente níveis de 50 mg% de alcoolemia levando a um relaxamento e
sensação de bem estar. Atingindo 75 mg% de alcoolemia, alguns indivíduos
tendem a se sentir mais relaxados afáveis, desinibidos, alegres, loquazes, sociáveis;
outros começam a se tornar quietos, silenciosos, introspectivos; outros
tornam-se hostis e agressivos. O aumento dos níveis sanguíneo de álcool até
100mg% já leva um estado de ataxia, incoordenação e uma queda do "juízo
crítico", com aumento da "autoconfiança", ficando muito
perigoso dirigir, por exemplo.
Níveis de 125 a
150 mg% já promovem alterações de comportamento que deixam a mostra à
personalidade subjacente do indivíduo: uns continuam afáveis e desinibidos,
mas outros se tornam muito agressivos ou entram num mutismo e quietude
exagerados. Estes efeitos continuam evoluindo com a ingestão alcoólica até
que, por volta dos 200 a 250mg%, os efeitos narcóticos do etanol começam a se
fazer sentir.
FASE
DEPRESSORA
Quando os níveis
sanguíneos de etanol atingem 200 a 250mg% em indivíduos não tolerantes e 300
a 350 mg% em bebedores-problema, o individuo passa a uma fase depressora, com
baixa ação neuronal. Neste momento a assistência médica deve ser imediata. Há
o risco de depressão respiratória e circulatória e a hospitalização de urgência
podem ser necessária.
RESSACA
O etanol é
fortemente tóxico tanto para o cérebro quanto para o aparelho digestivo
(principalmente estômago e fígado), e seus metabólicos são ainda mais tóxicos,
principalmente o acetaldeído, que é responsável pela sensação de mal estar,
náuseas, vômitos, cefaléia, tonturas e indisposição pós-embriaguês. Estes
sintomas em geral são autolimitados e desaparecem com uso de sintomáticos. Em
estilistas mais persistentes, mas ainda não totalmente alcoólatras, estes
sintomas na verdade já podem ser uma Síndrome de Abstinência precoce.
COMENTÁRIOS
SOBRE A INTOXICAÇÃO ALCOÓLICA AGUDA
A embriaguez, ou
intoxicação alcoólica aguda se caracteriza por todos os passos descritos até
agora e o médico deve sempre pensar na possibilidade deste diagnóstico quando
se deparar com um paciente muito eufórico, muito loquaz, emocionalmente muito
labelo, com a fala arrastada, face avermelhada olhos avermelhados, ou até mesmo
letárgico e inconsciente. A embriaguez é causa de quedas, acidentes automobilísticos,
crimes, traumatismos diversos e devem ser obrigatoriamente diferenciada da
intoxicação por sedativos, traumatismo craniano, hiperglicemia grave, etc.
É IMPORTANTE
SALIENTAR QUE NÃO HÁ NADA QUE SE POSSA FAZER PARA ACELERAR A METABOLIZAÇÃO
DO ÁLCOOL OU QUE ALIVÍE OS SINTOMAS DE EMBRIAGUEZ, INCLUÍNDO A GLICOSE OU
FRUTOSE INTRAVENOSA.
TRATAMENTO
DA INTOXICAÇÃO ALCOÓLICA AGUDA
CASOS
DE LEVE INTENSIDADE:
Não requer
tratamento medicamentoso, apenas deve-se manter uma vigilância cuidadosa do
paciente e verificação dos dados vitais até a melhora clínica do paciente.
CASOS
DE INTENSA AGITAÇÃO OU AGRESSIVIDADE:
Devem ser utilizados:
- Apóio verbal
contínuo até que os efeitos se dissipem
- Benzodiazepínico
IM* ou EV em doses cautelosamente crescentes (máximo de 40mg/24 hs de diazepam
VO ou EV)
- Haloperidol IM
ou IV na dose de cinco mg
- Clorpromazina **
IM na dose de 25 mg
- Droperidol IM ou
IV na dose de um ml para cada 10 quilos de peso corporal
* via IM ->
absorção errática no caso do diazepam
** ATENÇÃO:
diminui o limiar convulsivo e pode induzir hipotensão, evitar o uso.
Convém lembrar
que não se utilizam obrigatoriamente TODOS estes medicamentos simultaneamente e
que se deve ter muito cuidado para se evitar a narcose cumulativa com o álcool.
Em nossa experiência a maioria esmagadora dos pacientes é controlada com o
Benzodiazepínico ou com Benzodiazepínico + Haloperidol.
CASOS
DE INTENSA DEPRESSÃO OU COMA:
- Puncionar uma ou
duas veias periféricas;
- Manter o
paciente em decúbito lateral;
- Lavagem gástrica
(para se retirar álcool residual e se evitar vômitos e aspiração pulmonar);
- Manter os sinais
vitais através de oxigênio a 4 litros/ minuto, hidratação venosa e quando
necessário, suporte ventilatório e circulatório;
- Administrar
glicose hipertônica a 50%, 50 ml EV;
- Administrar
tiamina 100 mg IM;
- Verificar e
anotar dados vitais com freqüência, de acordo com a gravidade do caso;
- Hemodiálise no
caso de alcoolemia maior que 500 mg%.
RESOLVIDO O CASO
AGUDO, NECESSITA-SE INVESTIGAR SE ESTE FATO FOI UM EPISÓ-
DIO ISOLADO OU NÃO.
EM CASO DE SER RECIDIVANTE, É ACONSELHÁVEL ENCAMINHAR.
O PACIENTE PARA
"FOLLOW-UP", PARA SERVIÇO ESPECIALIZADO EM TRATAMENTO DE AL
COOLISMO.
ALCOOLISMO
OU DEPENDÊNCIA ALCOÓLICA
O alcoolismo e uma
síndrome de dependência conseqüente ao uso excessivo e prolongado de álcool,
e caracteriza-se por: (1) um paciente de alto risco, (2) desenvolvimento de
mecanismos auto-perpetuantes produzindo a dependência, (3) uma evolução
clinica mais ou menos típica e (4) complicações e seqüelas específicas.
Geralmente a dependência do álcool e negada pelo paciente que quase sempre não
admite beber demais, atribuindo este fato à "problemas", “aos
nervos”, etc. Freqüentemente a família também nega a dependência, julgando
ser o alcoolista uma pessoa com problemas morais, pessoais, uma pessoa fraca,
sem vergonha, sem caráter e nunca uma pessoa doente. A evolução clinica
progressiva se caracteriza por repetidos episódios de embriaguez, seguidos
geralmente de característicos sintomas de abstinência e períodos de acalmia
no uso do álcool.
O médico deve
estar atento para o diagnóstico de alcoolismo sempre que um adulto apresentar:
pelagra, tuberculose, hipertensão arterial, polineurite pancreatíte, náuseas,
vômitos matinais, diarréias repetidas, azia, gastrite esofagite, dor
abdominal, hemorragia digestiva, hepatomegalia, cirrose, alterações
laboratoriais da função hepática, hálito alcoólico, olhos avermelhados,
face avermelhada, perda de peso, inapetência, desemprego prolongado, má adaptação
familiar e social, acidente de trânsito, acidente de trabalho, historia de
crianças gravemente espancadas, "nervosismo", insônia convulsão,
dores musculares, principalmente membros inferiores, fraqueza, principalmente
nos membros inferiores, impotência sexual, palpitações, escoriações,
fraturas repetidas.
Os fatores
predisponentes que contribuem para a suscetibilidade ao alcoolismo podem ser
biológicos, psicológicos ou sociais. Estudos feitos em pessoas criadas por
pais adotivos não alcoólatras indicam um forte componente genético nos alcoólatras.
Ao chegarem a idade adulta, os filhos de pais biológicos alcoólatras tem uma
incidência quatro vezes maior de alcoolismo do que aqueles filhos de pais não
alcoólatras. As psicopatologias são encontradas mais freqüentemente nos alcoólatras,
como um grupo, do que nos não alcoólatras. Influências sociais podem ser o
fator dominante na determinação do nível de ingestão de álcool, e estas
influências incluem sexo, etnia religião, nacionalidade, situação sócio-econômica,
profissão, padrões familiares, pressão de colegas, etc.
Para fazer o
diagnostico da síndrome de dependência do álcool, teoricamente, três ou mais
dos seguintes critérios devem estar presentes durante algum tempo, no último
ano, na história do paciente:
a) uso persistente
do álcool, apesar das evidências de danos hepáticos, neurológicos, físicos
(neste caso deve-se certificar que o usuário esta consciente da natureza e
extensão dos danos);
b) abandono
progressivo de interesse e dedicação a atividades de lazer devido ao uso de álcool,
aumento do tempo gasto para obter e consumir bebidas alcoólicas ou para
recuperar-se de seus efeitos;
c) presença de
tolerância, sendo necessárias doses muito altas de álcool para obter efeitos
antes produzidos por doses pequenas (o individuo chega a tolerar doses de álcool
capazes de sedar, incapacitar ou mesmo matar pessoas não tolerantes);
d) sinais e
sintomas de abstinência quando o uso do álcool é interrompido ou muito diminuído;
e) dificuldades
para controlar o consumo de álcool quanto ao reinício, parada ou quantidade
consumida;
f) desejo intenso
ou percepção de compulsão para beber.
O alcoolismo é o
resultado final de uma série de processos que iniciam e depois perpetuam a
ingestão excessiva de álcool. A bebida proporciona temporariamente uma sensação
de euforia ou alívio temporário para alguma tensão física ou psíquica.
Entretanto, a ingestão crônica de álcool gera reações fisiológicas e
psicológicas que aumentam o desejo de consumir mais: a substância que satisfaz
a necessidade paradoxalmente é aumenta. O primeiro mecanismo auto perpetuante e
a dependência psicológica primária na qual o prazer o alivio da tensão, do
desconforto e da ansiedade causadas pelo uso do álcool vai se transformar em
uma pedra angular que caracteriza a dependência a todas as classes de drogas
psicoativas, a dependência psicológica secundária se desenvolve com o início
da dependência física, há necessidade de beber para evitar a perda da sensação
prazerosa causada pela droga e para evitar os sintomas de abstinência.
A combinação
dessas duas dependências psicológicas traduz-se no aparecimento do desejo contínuo
de beber, desejo este que é reforçado especialmente por fatores externos. Com
o abandono do álcool, estas duas dependências psicológicas diminuem
razoavelmente em seis meses e praticamente desaparecem apos dois anos.
Se o indivíduo
continua a ingerir altas doses de álcool, ocorrem alterações metabólicas que
levam ao aumento da tolerância ao mesmo. Essa tolerância ocorre em um nível
metabólico (maior eficiência das enzimas hepáticas que metabolizam o etanol),
em um nível celular (principalmente em nível de células do sistema nervoso
central, onde ocorre aumento do numero de receptores GLU-ergicos) e em um nível
comportamental (uma resposta global de aprendizado que permite ao individuo
manter-se "comportado" sob a influencia do etanol).
A dependência física,
presumivelmente, se desenvolve a partir das alterações celulares que levam a
tolerância acima descrita. Os neurônios começam a apresentar uma
excitabilidade maior para compensar os efeitos depressores da ingestão crônica
de álcool; se o nível de etanol cai, há um aumento acentuado na
"irritabilidade" do sistema nervoso central e esta e uma das causas da
fenomenologia da abstinência.
A evolução
clinica clássica do alcoolismo caracteriza-se pelo desenvolvimento da dependência
física, aceleração do ritmo de ingestão de álcool, evidências inequívocas
de distúrbios físicos, psíquicos e sociais, descuidos quanto aos cuidados
higiênicos, indiferenças quanto às responsabilidades familiares, financeiras,
sociais, e no trabalho. Tudo isto tende a aumentar ainda mais a compulsão pela
bebida. Um dos sinais mais precoces do desenvolvimento do alcoolismo são o
“black-out" (episódios de amnésia temporária que ocorrem durante períodos
de ingestão intensiva de álcool, que podem persistir por períodos de horas a
dias, se o individuo continuar a beber).
A Síndrome de
abstinência alcoólica aguda ocorre episodicamente apos período prolongado de
ingestão maciça de álcool seguida de abrupta interrupção, diminuição da
ingestão. E nesta fase que muitos alcoolistas procuram tratamento.
TRATAMENTO
DO ALCOOLISMO
No atendimento dos
alcoolistas destacamos duas fases: a DESINTOXICAÇÃO e a MANUTENÇÃO DA ABSTINÊNCIA
COM RECUPERAÇÃO TOTAL DO PACIENTE.
De uma maneira
geral podemos dizer que o principal objetivo do tratamento e ajudar o paciente a
viver abstinente, retomar suas atividades produtivas, sociais, familiares. ESTA
NÃO É UMA TAREFA FÁCIL, uma vez que durante muito tempo o álcool ocupou um
lugar de destaque na vida do alcoolista, sendo muitas vezes fator relevante,
prioritário, importante mesmo, nos seus pensamentos e no seu dia a dia.
A abstinência do
álcool nas primeiras semanas causa desconforto e o paciente tem que aprender ou
reaprender a executar tarefas, trabalhar, dormir, conversar, sem a presença do
álcool, e em muitos momentos o desejo de voltar a beber se torna algo incontrolável.
Toda a equipe que atende ao alcoolista deve estar atenta e fornecer todo o apoio
ao mesmo, compreendendo as dificuldades iniciais em geral experimentadas pelos
pacientes.
Quando dos
eventuais retornos dos pacientes ao consumo de álcool, deve-se entender que
isto não significa, necessariamente, um mau prognóstico. Nestes momentos o que
importa é a valorização dos êxitos parciais obtidos pelo paciente (por
exemplo: uma pessoa que bebia diariamente passa a beber 50 dias por ano).
Deve-se aprender a aceitar as recaídas dos alcoolistas como momentos de
agravamento da doença e não como indicação de desistência do tratamento. A
sugestão de que alcoolistas tratados podem por vezes retornar com segurança a
beber socialmente não tem nenhum fundamento e deve ser desencorajada, pois os
mecanismos perpetuantes do ciclo de dependência permanecem muito ativos durante
muitos anos.
A literatura clássica
relaciona o DISSULFIRAM (que nos jamais utilizamos em nosso serviço), a
PSICOTERAPIA (que e o nosso mais expressivo estratagema e nossa maior experiência),
e os ALCOOLICOS ANÔNIMOS (aos quais não temos nenhuma restrição) como os três
mais eficazes modos de tratamento dos alcoolistas.
A psicoterapia
visa conseguir a abstinência e realizar as alterações no ajuste social e
psicológico necessárias para mantê-la. A nossa experiência mostra que esta
tarefa e das mais difíceis no tratamento.
Os Alcoólicos Anônimos,
uma "associação" de ex-alcoólatras que conseguiu superar a própria
dependência do álcool, oferecem um forte apoio e aceitação, além de um convívio
que tão freqüentemente os alcoolistas perderam e parecem muitas vezes
desesperadamente precisar encontrar para se recuperarem.
OBSERVAÇÕES:
1 - O Dissulfiram
age inibindo a ação da acetalde¡do-desidrogenase, e com isto a concentração
de acetaldeído no sangue aumenta de tal forma que o paciente se sente
terrivelmente mal (efeito antabuse). Nos não utilizamos tal estratégia.
2 - Outra medicação
que parece promissora no tratamento do alcoolismo e o naltrexone, um antagonista
opióide. Ele agiria bloqueando a ação das endorfinas, liberadas sob o estímulo
do álcool, eliminando, assim, a sensação de bem-estar induzida pelo mesmo. A
posologia preconizada e de 50mg/dia, durante três meses. Também nesse caso, a
psicoterapia e fundamental.
3 - A terapêutica
de substituição usando benzodiazepínicos pode ser empregada com sucesso,
desde que seja breve. Deve-se lembrar que tais substâncias exibem tolerância
como álcool, uma vez que atuam ao nível do mesmo receptor GABA-A no SNC,
podendo, assim, causar igual dependência física. O uso de benzodiazepínicos
deve-se estender por, no máximo, duas semanas. As doses diárias devem ser
diminuídas progressivamente para se evitar sinais de abstinência, sobretudo
observando-se a ação prolongada dessas drogas (diazepam - meia-vida de 20 a 50
horas; clordiazepóxido - meia-vida de 6 a 30 horas).
SÍNDROMES
DE ABSTINÊNCIA AGUDA DO ÁLCOOL
Os alcoólatras
fisicamente dependentes que passam por um período prolongado de alta ingestão
de álcool apresentam, com a cessação da bebida, uma síndrome caracterizada
por um padrão clínico de hiperexcitabilidade cortical (comportamental) e beta
adrenérgica (autonômica).
Qualquer um desses
padrões pode ser predominante. Nesta fase, o profissional de saúde deve tentar
engajar o paciente e sua família no tratamento, tentando correlacionar os
problemas clínicos com o uso do álcool, considerando o paciente como portador
de uma doença e procurando informá-lo da reversibilidade do quadro com o
tratamento.
Esta e uma ocasião
em que o profissional de saúde deve avaliar o caso e decidir se o paciente pode
ser tratado ambulatorial ou se necessita hospitalização. Esta definição
dependera:
1) da intensidade
dos sintomas de abstinência,
2) da intensidade
das complicações orgânicas e psíquicas,
3) do nível de
aceitação do paciente da sua própria realidade;
4) do nível da
retaguarda familiar e assistência disponível.
De modo geral, em
nossa experiência, essa hospitalização tem curta duração, que compreende
uma fase inicial de tratamento denominada DESINTOXICAÇÃO. Em nosso serviço,
aproximadamente 40% dos pacientes passam pela unidade de desintoxicação.
Sabendo-se que a desintoxicação e um fenômeno biológico que ocorre todas as
vezes que o alcoolista para de beber, não necessitamos de qualquer medicação
em grande numero de pacientes, mas e necessário rigoroso exame físico e avaliação
laboratorial, que via de regra mostra vários exames alterados. Os pacientes
muitas vezes necessitam apenas de carinho, atenção, local arejado, bem
iluminado e manutenção dos cuidados básicos de enfermagem.
Entretanto a
ABSTINÊNCIA AGUDA pode apresentar sintomas intensos (ALUCINOSE ALCOÓLICA
AGUDA, DELÍRIUM TREMENS INCIPIENTE, CONVULSÕES E DELIRIUM TREMENS. Nestes
casos a atenção médica e medicação são importantíssimas).
ALUCINOSE
ALCOÓLICA AGUDA: Este
quadro se caracteriza essencialmente por alucinações proeminentes, vividas,
intensas, persistentes, principalmente auditivas (também podem ser visuais),
sem alteração do nível de consciência, intensamente desagradáveis, que
usualmente duram menos de uma semana (mas podem durar semanas ou meses). Não há,
caracteristicamente, muita agitação e tremores. O tratamento é feito com
Haloperidol, IM, 5 a 10 mg/dia, seguido por Haloperidol, VO, 5 a 10 mg/dia.
Deve-se tomar cuidado com a possibilidade de impregnação, que pode ser evitada
com o uso de Bipireno. Hidratação venosa e reposição eletrolítica quando
necessárias (fazemos rotineiramente em nosso serviço).
- Também os
benzodiazepínicos podem ser utilizados.
- Tiamina 100mg,
IM (fazemos rotineiramente em nosso serviço).
DELÍRIUM
TREMENS INCIPIENTE:
Este
quadro se caracteriza essencialmente por fenômenos oriundos das descargas
beta-adrenérgicas do tronco cerebral: agitação, sudorese, alterações
vasomotoras, aumento da pressão arterial, tremores, insônia, ansiedade. O
tratamento e feito com Diazepan, na dose de 10mg IM* , seguida por 10 a 20 mg,
VO, até de 6/6 horas (no máximo 80 mg/dia). Esta é a nossa conduta para esses
casos, além de Tiamina 100 mg, IM. Teoricamente a Clonidina poderia ser usada
como antagonista das descargas beta-adrenérgicas, mas não usamos este
medicamento.
* A absorção IM
do diazepam é errática. Melhor tentar VO ou EV, de acordo com o estado do
paciente.
CONVULSÕES:
Este quadro se caracteriza por convulsões que podem ocorrer ate 48 horas após
a parada de ingestão alcoólica. São convulsões generalizadas que podem
ocorrer em crise isoladas ou em crises seqüenciais até como STATUS EPILÉPTICUS.
A causa dessas convulsões esta relacionada a excito-toxidade mediada pelo
aumento do numero de receptores GLU-érgicos ao nível do SNC. A tomografia, via
de regra, nada revela. O EEG, no período entre as crises, também nada revela.
A ressonância magnética pode, às vezes, mostrar lesões irreversíveis. O
tratamento é feito, em nosso serviço, com Diazepam EV, lentamente, até a
cessação da convulsão, seguida imediatamente de uma dose única de Fenitoína
IM, para prevenir novas crises. Às vezes, pode ser necessária a hidantoínização
urgente do paciente. O tratamento "profilático", "crônico",
com anticonvulsivante é desnecessário.
DELÍRIUM
TREMENS:
Este
quadro constitui a mais grave intercorrência clínica e é devido a acentuados
sintomas de hiperatividade autonômica (hipertensão, taquicardia, sudorese,
tremores intensos, hipertermia, agitação intensa), câimbras, desorientação
temporo-espacial, alucinações vividas, intensas (auditivas, visuais e táteis),
pensamentos delirantes. Este quadro constitui uma emergência médica, pois a
taxa de mortalidade é de cerca de 15% nos casos não tratados, principalmente
devido a complicações como pneumonia e hepatite aguda. Às vezes, o DELÍRIUM
TREMENS ocorre após as convulsões da abstinência. Com o tratamento adequado
os sintomas mais graves desaparecem em cerca de 10 dias e os menos graves
perduram até por mais de seis meses. O tratamento consta de Diazepan EV,
lentamente, no máximo 100 a 120 mg/dia, dependendo da agitação observada,
clordiazepóxido, 100 mg EV a cada dois ou 6 horas de acordo com a necessidade,
sendo 500mg a dose máxima a ser usada nas primeiras 24 horas (nas 24 horas
seguintes usar a metade da dose usada no 1º dia e diminuir progressivamente
25-50 mg/24hs, nos dias seguintes); Tiamina 100 mg, IM, de 8/8 horas; Sulfato de
Magnésio (solução a 50 %) dois ml, IM, dois a três dias; reposição eletrolítica;
cuidados gerais. Com a evolução favorável troca-se à via de administração
para oral assim que for possível.
COMPLICAÇÕES
CLÍNICAS - DOENÇAS RELACIONADAS AO ÁLCOOL
As complicações
clínicas secundárias ao uso crônico do álcool estão relacionadas:
- aos problemas
nutricionais causadas por insuficiência alimentar;
- doenças
causadas pelos efeitos tóxicos diretos do etanol.
Devido ao fato de
cada grama de etanol ingerido, fornecer SETE CALORIAS, podemos deduzir que um
individuo que faça uso de MEIO LITRO DE BEBIDA, COM 50% de teor alcoólico vai
ingerir, apenas na bebida, 1250 calorias, somente derivadas diretamente do álcool.
Nestas condições, muitos alcoólatras consomem pouco alimento. Como a bebida não
contém vitaminas, proteínas, sais minerais, aminoácidos e outros elementos
nutricionais essenciais, os alcoólatras freqüentemente apresentam carências
nutricionais graves. Além destes efeitos temos que levar em conta os efeitos tóxicos
diretos do etanol, que também produzem distúrbios graves.
As doenças
relacionadas ao álcool podem envolver todos os sistemas orgânicos do corpo. Se
fossemos dividir, por uma questão didática, a doença poderia relacionar:
SÍNDROMES
DEVIDAS AOS EFEITOS TÓXICOS DIRETOS
NO CÉREBRO: demência
alcoólica (atrofia cortical)
NO CORACAO:
miocardiopatía alcoólica e arritmias cardíacas
NO SANGUE:
anemias, leucopenias, trombocitopenias.
NO TRATO
GASTROINTESTINAL: gastrite (aguda e crônica), pancreatíte (aguda e crônica),
carcinoma da cabeça e pescoço, carcinoma de esôfago.
NO FÍGADO:
degeneração gordurosa (esteatose), hepatite aguda, cirrose de Laennec
NO METABOLISMO:
dislipidemia (colesterol, triglicéride, lípides totais, hiperuricemia)
NO SISTEMA ENDÓCRINO:
impotência sexual masculina, Síndrome alcoólica fetal.
NO SISTEMA IMUNE:
maior suscetibilidade as infecções (imunossupressão)
NO EQUILIBRIO
HIDRO-ELETROLÍTICO: hipocalcemia, hipomagnesemia, hipofosfatemia, cetose alcoólica,
hiperosmolaridade alcoólica, intoxicação hídrica aguda.
SÍNDROMES
DEVIDAS AOS EFEITOS NUTRICIONAIS
NO CÉREBRO: síndrome
de Wernicke-Korsakoff, degeneração cerebelar, mielinose pontinha central
(secundárias a alterações eletrolíticas durante a terapia)
NOS NERVOS:
polineuropatia periférica (deficiência de tiamina)
NO CORAÇÃO:
cardiopatia beribérica (deficiência de tiamina), hipertensão arterial.
NO SANGUE: anemia
macrocítica (deficiência de ácido fólico)
NO TRATO
GASTROINTESTINAL: síndrome de má absorção
NO FÍGADO:
cirrose de Laennec
Todos os alcoolistas tem um risco
maior de desenvolver patologias que os não alcoolistas. A doença hepática é
uma das causas mais freqüentes de mortalidade e morbidade no homem e já esta
demonstrada que o álcool ingerido sem deficiência nutricional concomitante
pode induzir a todas as patologias relatadas. E evidente que o prognóstico no
alcoolismo está relacionado à fase e a gravidade do processo mórbido.
Aceita-se que a morbidade e mortalidade podem ser divididas em duas categorias
principais: aquelas relacionadas diretamente a dependência ao álcool e aquelas
relacionadas diretamente aos efeitos do álcool. (Drug-induced disorder; drug-related disorder).
Talvez as mais
graves conseqüências do alcoolismo sejam as mortes relacionadas ao
comportamento dos alcoolistas, tais como acidentes de transito (50 % das mortes
em rodovias são causadas por se dirigir embriagado), suicídios (25% dos
suicidas tem história de alcoolismo), morte por intoxicações (o álcool é o
agente que mais intoxica e leva ao óbito), brigas, assassinatos e ocorrências
policiais.
Nos EUA o
alcoolismo é o quarto agente causal de morte, ficando atrás somente das
cardiopatias (não alcoólicas), AVC e câncer. A perspectiva de recuperação
do alcoolista depende fundamentalmente do seu interesse em se tratar, da
qualidade dos serviços de apoio a ele oferecidos, do sucesso dos medicamentos
prescritos, da natureza das complicações já instaladas, do nível de lesão
cerebral já instalado. Enfim, muito difícil se falar em prognóstico de cura
para o alcoolista, pois sabemos que cada paciente é diferente do outro e reagem
de maneira distinta as mesmas estratégias de tratamento aplicadas.
Para encerrar,
falaremos de três patologias que tivemos oportunidade de acompanhar no CENTRO
MINEIRO DE TOXICOMANIA e, a seguir, incluiremos uma tabela de exames
laboratoriais que mais freqüentemente solicitamos e que se apresentam alterados
nos casos de alcoolismo.
SÍNDROME
ALCOÓLICA FETAL
Esta síndrome
afeta cerca de 33% das crianças nascidas de mães alcoolistas que fizeram uso
de álcool durante a gravidez. Acredita-se em uma dose diária de 150 mg por dia
ou mais, para se ter os efeitos descritos na literatura. Mas acreditamos que
mesmo doses menores de álcool possam vir a trazer um ou outro sinal da síndrome
e não a síndrome completa. Os achados clássicos da síndrome incluem:
- Alterações no
equilíbrio hidro-eletrolítico, que podem ser gravíssimas.
- Retardo no
desenvolvimento pondero-estatural.
- Pequena
circunferência cerebral e craniana.
- O recém-nato
mama pouco e dorme pouco, é extremamente irritadiço, agitado, trêmulo,
sugerindo ocorrência de fenômenos de abstinência.
- Baixo quociente
de inteligência (QI).
- Fissura
palpebral pequena (parece olho de oriental).
- Hipoplasia
maxilar.
- Problemas
articulares, notadamente nos dedos (podendo afetar outras articulações
maiores).
- Malformações
cardíacas.
- Alterações na
coordenação motora.
- Tremores finos
de extremidade.
- Anemia neonatal.
- Convulsões, às
vezes de dificílimo controle.
As crianças
afetadas gravemente e que conseguem sobreviver ao período neonatal podem
atingir parâmetros normais de altura, peso, circunferência cerebral, mas
permanecem com retardo mental mesmo em ótimas condições ambientais. Não há
um tratamento específico para esta síndrome, exceto a manutenção das funções
vitais da criança, do tratamento dos distúrbios metabólicos, das convulsões,
das malformações cardíaca e articular. Enfim, o tratamento e suportivo.
SÍNDROME
DE WERNICKE-KORSAKOFF
E uma doença
neurológica, nutricional, causada pela deficiência crônica de vitamina B1, além
disso, a excitocidade mediada pelos receptores GLU-érgicos parece ter importância
capital no desenvolvimento da síndrome. Classicamente dividido em encefalopatia
de Wernick e a psicose de Korsakoff, merece uma abordagem diferencial. A
encefalopatia é o único distúrbio neurológico relacionado ao álcool que
pode ser corrigido mediante a administração de uma vitamina especifica:
TIAMINA. O quadro clínico clássico da encefalopatia é descrito por uma tríade
composta por alteração oftalmológica, ataxia e confusão mental.
Os pacientes se
queixam de diplopia, desequilíbrio, quase sempre ha nistágmo, às vezes ptose
palpebral. Praticamente todos os pacientes apresentam uma marcha atáxica devida
ao acometimento cerebelar. A gravidade destes achados é amplamente variável. A
maior parte dos pacientes apresenta um estado confusional agudo, caracterizado
por desatenção, desorientação, indiferença, apatia, insônia e amnésia.
São comum a
presença de anormalidades físicas decorrentes do alcoolismo crônico e
desnutrição. A tiamina injetável (no inicio do tratamento) e oral (nas fases
posteriores) provavelmente irão resolver todos estes sintomas; apenas a memória
pode não se restabelecer completamente, o que sugere lesão cerebral irreversível
mediada pelos receptores GLU-érgicos.
A psicose de
Korsakoff se manifesta classicamente por um defeito na formação da memória
recente (amnésia anterograda) e na evocação da memória para fatos já
estabelecidos (amnésia retrograda). Os pacientes costumam se apresentar
desorientados no tempo e no espaço. A evocação da memória para fatos
imediatos esta intacta, mas os pacientes são incapazes de enumerar os mesmos
itens após alguns minutos. A confabulação, de caráter resoluto costuma
ocorrer precocemente na evolução da doença. Outros aspectos da função
cognitiva-incluindo despertar, a linguagem, a praxia e a capacidade de
julgamento (raciocínio) - mostram-se poupados.
Os pacientes que
apresentam a síndrome de Korsakoff devem receber tiamina, a fim de tratar a
encefalopatia de Wernick coexistente e evitar a evolução para a amnésia.
Cerca de 20% dos pacientes se recuperam por completo. Porém, mais da metade
evidencia melhora mínima ou nula.
A melhora do
quadro pode levar de um a três meses para ser reconhecível. O estado
confusional e os distúrbios óculo-motores observados na encefalopatia de
Wernick respondem a terapêutica com a tiamina, quer cesse ou não o consumo de
álcool. No entanto, as calorias proporcionadas pelo etanol parecem ser um fator
contribuinte importante para os déficits neurológicos.
Em prisioneiros de
guerra submetidos à privação calórica que vieram a desenvolver a
encefalopatia de Wernicke, raramente se observou a síndrome amnésica irreversível.
No entanto, o nistagmo, a ataxia e os déficits de memória freqüentemente não
melhoram com o tratamento com a tiamina, indicando que algumas áreas do cérebro
foram irreversivelmente lesadas. Não se conhece ainda, contudo, o defeito metabólico
molecular que precede a lesão tissular na encefalopatia de Wernick e na síndrome
amnéstica de Korsakoff.
POLINEUROPATIA
PERIFÉRICA ALCOÓLICA
A polineuropatia
é comum entre p |